AS BRAÇADAS (OTIMISTAS) DE JOSENILDO

Josenildo Arreba Tamento andava com a cabeça nas nuvens. Há dias fica sentado na beira do mar admirando a paisagem. Quando as pessoas lhe dirigem a palavra, Josenildo fala sobre coisas estranhas, palavras quebradas, idéias pueris e equações improváveis.

Por conta de suas nefelibatisses perdeu o emprego. Seu Ramiro, dono do armazém de secos e molhados, não agüentava mais os trocos errados dados por Josenildo, não agüentava mais os copos mal lavados deixados no escorredor, não agüentava mais ver Arreba viajando enquanto os clientes esperavam no balcão. Seu Ramiro é homem sério e não podia deixar seu negócio desbancar.

A gota d’água caiu quando Dona Gertrudes, freguesa antiga que paga as contas em dia (coisa rara), reclamou da demora de duas horas na entrega de suas compras. Como poderia Josenildo demorar duas longas horas para entregar uma compra a três quadras. Seu Ramiro decidiu investigar e descobriu que Josenildo passou uma hora e cinqüenta e três minutos olhando para a Ilha do Fora.

Ao ser cobrado por explicações, não negou o fato e descreveu como aquele dia a geralmente nubosa Ilha do Fora estava com o horizonte belissimamente limpo e vistoso. Descreveu as complicadas e maravilhosas curvas que as montanhas da ilha delineavam no horizonte, explicou o quão radiantemente verde parecia sua vegetação e o quão misterioso era o seu reflexo dançante no mar. O dono do armazém não quis mais ouvir aquelas coisas esquisitas e lhe demitiu.

Josenildo Arreba Tamento sempre foi um rapaz comum, trabalhava, estudava, tinha uma namoradinha e nos fins de semana batia uma pelada. Era um bom filho, um jovem educado, ia à missa aos domingos e queria comprar uma casinha. Sonhava com a carreira militar, seguindo os passos do avô queria servir e proteger a pátria.

Todavia, em um sábado de sol Josenildo escutou uma conversa estranha de Laurênsio, o velho que cuspiu no chão do bar. O velho punkado contou todos os mistérios e as maravilhas que cercavam a Ilha do Fora. Falou sobre os deliciosos cachimbos que fumava debaixo do mar da Ilha do Fora, sobre a sensação indescritível de se chupar um crânio da Ilha do Fora, sobre o sistema numérico oncedecimas da Ilha do Fora, sobre os homens que amam ramos de brócolis da Ilha do Fora, do mostruário de moléculas e de elementos da Ilha do Fora, das piruetas de Pelemerda da Ilha do Fora, dos papagaios de marte que falavam em árabe com sotaque alemão na Ilha do Fora, das montanhas que não se parecem com montanhas e que iam até os Mohamedes da Ilha do Fora, das mulheres que se deliciavam de prazer e jamais perdiam a virgindade na Ilha do Fora, das diferentes linguagens e significados sem significantes da Ilha do Fora, dos gases inteligentes que alimentam a Ilha do Fora com suas narrativas.

Josenildo ficou maravilhado com essas lindas histórias. No começo achou que tudo era mentira. Desde pequeno ouvia histórias medonhas sobre tal ilha. A que mais lhe assustava falava sobre O Abismo Parepistêmico que há no caminho das linhas de fuga que se dirigiam para tal ilha. Diziam que os barcos que seguem aquela direção caem em um enorme abismo, no fundo do abismo há o monstro do fim do mar que na noite de breu se põe a voar. Ademais os que lá chegam, de lá jamais retornam. Os que retornam deixam lá a alma e a consciência: voltam endiabrados, loucos, inadaptados e perigosos – caso do velho Laurêncio.

Mas o rapaz se sentia horripilantemente entediado com a vida e com as paisagens da Praia do Ordenado e foi atraído pela grande intensidade do campo magnético da Ilha do Fora. O rapaz agora queria voar e saiu espalhando as histórias de Laurênsio pela vila causando medo, dó, repugnância, dúvida e agressividade nas pessoas que o ouviam. Alguns o intimavam usando como argumento as horríveis histórias que contavam sobre o lugar: “As neblinas teóricas que rondam a Ilha confundem os sentidos e ameaçam a sociabilidade necessária para a vida...”, “Se fores para Fora, tornar-te-á de um escombro humano” ou “irás sufocar sem ar nas imensas altitudes dos picos das Montanhas de Absurdo”. Outros o evitavam: “não deixe as crianças chegarem perto dele” dizia-se pela vila. Muitos o chacoteavam e o ridicularizavam.

Josenildo Arreba Tamento não se intimidou. Foram até a sua casa o padre, o prefeito, o tio, o professor, a namorada, o delegado, o psicólogo, o zagueiro do time, o banqueiro, o poliglota, o açougueiro e o fenomenologista, mas ninguém conseguia arrancar de sua cabeça essa estúpida idéia. Todos tinham um enorme medo dos perigos sensíveis e afectuais que a Ilha representava. Mas esse medo não tocava o coração de Arreba Tamento.

O rapaz ficou surdo de monotonia perante o que lhe diziam. Percebeu que Báscara não sobreviveria ao sistema oncedecimal e jogou o livro de matemática fora. Cansou-se dos rios que são sempre rios das planícies que só se parecem com planícies. O nível de identificação com a língua se tornou tão precário que não conseguia mais unir o sujeito ao predicado – que dirá do objeto indireto. Na verdade, letras e palavras já não davam conta do que se queria expressar, não há fonemas para isso, o leque estrutural lingüístico se tornou uma camisa de força insuportável.

No outro dia o velho marginal apareceu boiando morto no mar. Os comentários, sempre acompanhados de um “Oh!!! Pobre Diabo...”, diziam que ele mergulhou a procura dos senhores do impossível e afogou. Esse fato serviu de argumento de repreensão a Josenildo e ele sentiu o cheiro de cotidianidade pútrefe no ar comum. Sabia muito bem que os senhores do impossível jamais nadariam nas águas da Praia do Ordenado.

O tédio e o nojo se tornavam insustentáveis: chegou a hora. Josenildo Arreba Tamento se sujou na lama morna do horrível pântano do ódio e com essa horripilantemente escura lama correu para o mar rumo a Ilha do Fora. Quando havia se afastado mais ou menos quatrocentos metros da praia, foi visto por um grupo garotos que caçavam caranguejos na praia.

Rapidamente a notícia e o pânico tomaram conta da vila. Todos deviam preparar o salvamento o mais rápido possível, não podiam deixar Josenildo se aproximar das águas metafísicas da Ilha do Fora e de sua estética impossível.

Josenildo sentia a magia, o encanto e a poesia penetrarem em sua alma. Começou a sentir as mais verdadeiras ilusionísses perceptíveis. Como estava sendo afetado e atravessado naquele momento. A cada braçada, sentia as engrenagens estourando, espanando e escapando de tal maneira que a qualquer momento a máquina da verdade mundana iria parar e atrofiar todo o estoque do conhecido.

Nessa hora, os nativos ordinários já estavam com suas canoas ao mar em busca de Arreba, a velocidade e o desespero marcavam o ritmo da ação. Barcos, canoas e botes atrás de Josenildo.

Arreba Tamento se aproximar do Abismo, avistou o monstro do fim do mar e o guarda da Fronteira Cosmológica que lhe gesticulavam alegremente. O escuro pleno proporcionou a mais nítida visibilidade que atravessou a vida de Tamento. Já se misturaram seus sentidos: a audição estava na língua, o olfato nos pés e mãos, o tato no ouvido, o paladar no olho e a visão no nariz. No momento em escorria de seu cabelo os últimos torrões da lama morna, desclassificou o sol por ter iluminado toda essa estrutura.

Quando Josenildo estava muito próximo da deliciosa invisibilidade da Fronteira olhou para trás e quase recebeu um tiro de realidade torpe no nariz vindo de uma espingarda dos ordinários que estavam à sua procura... por conta de uma existência de contornos pouco definidos Josenildo não foi acertado.

O salvamento não foi realizado com êxito. E agora As fronteira do possível agora possuía uma preocupante rachadura.



HOMENAGEM AOS HERMANOS


Do mar onde não havia prata

Mas somente águas amarronzadas

Vejo Buenos Aires coberto

Pela fumaça do Diesel de uma grande Cidade


Ruas estreitas e largas avenidas,

Fios e cabos elétricos cruzando os prédios pelos ares

Chorizo, morcilla, alface, batata e suco de laranja

Enfim um comichão em Buenos Aires


Gente simpática gente estúpida

O garçom é bravo e o serviço de mesa é um pão

Vinho, cerveja, uísque e outras águas estranhas

O cone sul gira e acho que vou tira um sonão


Monumentos parques palácios museus e bares

Vamos de metrô trem e busão de forma cuidadosa

Gente suspeita caminhando na cidades perigosa

Mas também tem uma pá de argentina gostosa


Seguimos seguindo a conhecer a mais européia das cidades da América Latina

Cheia de Bank de Boston, Mc Donald e Microsoft na latrina

Mas ao deixar essa cidade louca e atrativa não agüentei e chorei

Pois tenho uma certeza: Nessa vida, talvez, aqui jamais voltarei

O PRIMEIRO MUNDO DE RAIMUNDO

Raimundo Dotado é um homem lutador e idealista. Acredita em um mundo novo, um mundo melhor. Para ele, um outro mundo é possível e necessário.

Dizem por aí que um homem que luta um dia é um homem bom, um homem que luta mais é melhor ainda, mas um homem que luta a vida inteira é imprescindível. Dotado é um homem imprescindível.

Sua consciência política veio junto com fitas K7 de punk e rap nacional. A realidade social nua e crua dita pelos subúrbios e periferias entrou em sua alma como uma facada cuja cicatriz só sairia com uma delicada e cara cirurgia. A explicação da realidade via músicas de protesto veio como uma lamparina que ilumina um ponto da escuridão. Raimundo começava a entender uma parte da sacanagem a que estava sujeito junto com seus pares.

Mas a escuridão é grande e precisa ser mais bem iluminada. Raimundo entrou para o grêmio estudantil de sua escola para também atuar como uma lamparina a iluminar a realidade. Mais do que iluminar, atuar na resolução da bagunça que agora pode ser vista e nomeada.

Decidiu estudar mais profundamente a sociedade, a política e a economia para melhor iluminar e, consequentemente, potencializar a arrumação da bagunça. Dotado entrou em uma excelente universidade. Estudou muito e permaneceu atuando politicamente no movimento estudantil. Dizia que deveria estar o mais ciente possível dos fenômenos da vida em sociedade para poder atuar de uma maneira mais efetiva e eficaz.

Assim sendo, Raimundo Dotado estudava muito e atuava politicamente. Nunca conseguiu ou quis entrar em um partido político, dizia que não conseguia se identificar totalmente com as propostas de nenhum deles. Seu caminho natural, após o término da graduação, foi atuar em pequenos coletivos e a trabalhar em ONGs.

Nunca abandonou a sua luta por um mundo melhor. Realizou projetos e mais projetos de educação integral e semi-desnatada. Formações, capacitações, cursos e aulas. Comícios, manifestações, atos e intervenções. Raimundo era bom naquilo. Dotado acreditava piamente que poderia mudar o mundo e foi se destacando em suas ações. A cada dia que passava, com muita luta e esforço, chegava um pouco mais próximo de seus objetivos. Sentia-se seguro do que poderia realizar e dava grandes passos em sua caminhada. Raimundo entendia bem a sacanagem pela qual estava submetido e atuava hábil e eficazmente na correção de tais desvios.

Um belo dia chegou ao ponto de ruptura, o salto qualitativo foi dado e Raimundo Dotado atingiu os seus objetivos: Conseguiu uma tremenda promoção na ONG em que trabalhava e passaria a ganha muito bem por isso.

Com o entendimento da realidade agora não é mandado, manda. Com o mando e com um bom salário arrumou a bagunça: agora não passa mais perreio, tem do bom e do melhor. Na propriedade do bom e do melhor atuou como uma lamparina a iluminar a realidade para todos os seus antigos companheiros: com um salário mensal de Dez Mil Reais o Brasil passa a ser automaticamente um país de primeiro mundo.

Este é o Primeiro Mundo de Raimundo.

Para ele, mais do que uma rima, isso foi uma solução.

COGUMELO DE ZEBU CONTRA A MERDA NA POLÍTICA!!!



Corra que 2012 vem aí!!!

CHUPA O CAROÇO!!!

Uma estapafúrdia que deixou honestos contribuintes embasbacados ocorreu em um requintado ponto comercial da Rua Oscar Freire.

Para maiores informações sobre a ação destes desclassificados acesse a Radio Lama:


Boa tarde e tome cuidado!!!

A VERDADE DE NADIE

Um ser sujo, maltrapilho e mal cheiroso caminha com um papelão debaixo do braço. Na praça demonstra sua fé, babando satisfeito e aplaudindo com os pés. As pessoas passam por ele e não compreendem de onde vem a satisfação de uma existência miserável como aquela. Permitam-me contar a bela história desta figura.

Jão Nadie é um mendigo riquíssimo. Nasceu da miséria da riqueza ou da riqueza da miséria. Vive de restos e de migalhas que por obra do acaso, ou não, caem em sua cesta, ou melhor, em seu chapéu. É o que muitos chamariam de vagabundo nato. Se não é de seu máximo interesse, ele não move uma palha. É de se notar que, em matéria de interesses, Jão não possui muitos. Tirando o gosto pela liberdade, pelo descanso contemplativo e pela galhofa (ou tiração de sarro), Nadie não possui muitos desejos logo, sofre muito pouco.

Nadie vagueia pelos mais diferentes espaços. Devagar e sempre, vai de cidade em cidade, de Estado em Estado conhecendo os horizontes que se apresentam à sua visão. Jão Nadie nunca está com pressa, nunca está sofrendo com a falta de tempo ou correndo atrás dele. Se ficar cansado deita em seu papelão ou em pufes de lixo distribuídos confortavelmente por qualquer canto onde haja seres humanos.

Das muitas paisagens conhecidas - matas tropicais, equatoriais, ciliares, selvas de pedra, cerrados, caatingas, pradarias, serras e restingas - prefere os grandes centros urbanos. Prefere os grandes centros urbanos não por uma questão de sobrevivência (+gente = +comida), mas por pura diversão. Adora montar sua tenda (composta por um papelão King size) em grandes e movimentadas avenidas.

Na hora do ruch (às seis da tarde, por que às oito da manhã está descansando contemplativamente) é um deleite. Jão Nadie vibra em ver as pessoas passarem como loucas em sua frente, é como um bálsamo para sua alma. Os caraíbas estão sem tempo, vivem reclamando da falta de tempo, correm atrás do tempo perdido, sentem-se aliviados ao recuperar um pouco de tempo. Jão ri calado, mas em sua risada há um componente de tristeza. Como podem as pessoas se auto-maltratarem dessa forma? Quanto sofrimento. Nadie devolve os olhares de dó que recebe com grandes olhares de compaixão (dos poucos olhares que recebe, a grande maioria são de dó).

Jão Nadie tem a plena convicção de que não precisa de muitas coisas para ser feliz. Um homem (e uma mulher) só precisa comer, beber, dormir, cagar, mijar, fazer sexo e discutir com adolescentes para ser feliz. O resto é necessidade artificial – isso sem contar o número muito baixo de gostos que possui. Acha uma estupidez uma vida cheia de bibelôs. Muita frescura demanda muito esforço e sofrimento desnecessários.

Jão algumas vezes come lixo, mas o azedume do alimento, para ele, soa como um queijo gorgonzola. A água da chuva ou da torneira continua molhada. Nadie dorme sobre poças d’água ou na lama como se estivesse em um colchão de molas. Muitas vezes dorme com fome, mas dorme a hora que quiser. Sua liberdade despudorada lhe permite cagar e mijar em qualquer lugar sem maiores apertos. Mendigas para meter na vida é o que não falta, aliás, chupeta de mendiga é uma das maiores expressões de liberdade. Discutir com adolescentes... oh!... para discutir com adolescentes, qualquer motivo é um bom motivo.

Ele recusa as ofertas mais caridosas das almas mais bondosas. Na noite mais fria do ano recusou um quente e macio cobertor com afirmações ritmadas e ritualisadas que se pareciam com uma marchinha de carnaval: – “Vai tomá no cú, vai tomá no cú!!! A maciez, o conforto desse cobertor me enoja, REI, me enoja!!! Quem pensa que sou, madame senhora, quem pensa que sou!!??”. Jão fica com frio, mas não fica moralmente comprometido.

Jão Nadie recusa o esforço desnecessário. Certa vez, conversou com um homem de negócios, um “homem vencedor”. Jão foi questionado sobre sua atitude para com o mundo a partir da seguinte afirmação:

- “Recuso-me a dar esmola... pago pelos serviços que me são oferecidos, se estivesse tocando violão, e não parado, lhe daria algo”.

Ao que Nadie respondeu, enquanto executava maravilhosos rodopios:

- “O repouso é relativo enquanto que o movimento é absoluto. Esmola não recebo, recebo migalhas esquecidas, tu que recebes esmolas dos pobres imbecis que insistem em trabalhar para o bem de suas negas. Não trabalho, mas também não exploro. Sou útil a sociedade, sou o depositário de uma falsa compaixão generalizada que utiliza esse disfarce para encobrir o sentimento de enorme satisfação que se dá ao saber que há alguém em situação pior. Um ser patético como você, que só pensa em dinheiro, em liquidez e em fluxos de caixa se considera sério? Vai você e o mercado pra puta que o pariu!!!”

O homem vencedor foi embora indignado e ultrajado pelas palavras desse pobre diabo.

Realmente Nadie acha uma estupidez se esforçar por “novos investimentos” ou pelo “bem da corporação” ou mesmo para “tirar unzinho aí”, não vê sentido nisso, o mundo é mais.

Sua atitude é subversiva, mas nem todos concordam. Certa vez, conversou com um ladrão, um “mano de estilo”. O mano o esnobou:

- “Ih véi, si liga!!! Cê num tem vergonha de fica aí pagando um sapo pros bói, implorando ajuda e agradecendo as merreca. Cê tá entrando no jogo dos cara... eles qué nóis assim, qui nem corderinho!!??”

Jão plantou uma bananeira e respondeu:

- “É você que tá pagando um sapo pros bói. Cê num si ligô que a sua busca pela inclusão no mundo do consumo também alimenta o sistema que você tanto despreza? Onde você torra a grana que você ganha? Eu não agradeço e não me sinto grato com as migalhas que caem no meu chapéu, sou um bom mendigo, sou ingrato, cínico, rancoroso e debochado. Não perco minha vida trabalhando, o crime é seu trabalho, ele alimenta o sistema na medida em que distribui a renda, na marra, mas não o suficiente para subverter o sistema. Dessa maneira, o seu crime-trabalho é como uma válvula de escape limitada que perpetua o sistema e legitima o uso da força na dominação. O crime é o creme!!!”

O mano de estilo foi embora duvidando de sua atitude e disposição.

Essas são as verdades que interessam à Nadie. Ele faz a sua produção de verdades, vive estas verdades e dá risada. Não precisa se legitimar a não ser perante a si mesmo. Jão Nadie sem querer nem desejar atraiu um enorme número de seguidores.

Céus e terras passarão, mas o exército de mendigos e leprosos não passará!!!

VOLÚPIAS ENLATADAS



Na noite passada ele se empanturrou de volúpia enlatada
Hoje acordou com uma imensa ressaca moral
Provou uma colherada do mingau do desdém
Perante seu gosto forte resolveu comer fora
Saiu de casa e esqueceu a dignidade na gaveta

Foi ao bar e sentou-se na mesa da solidão
Como não havia juízo
E a vergonha na cara estava em falta
Tomou um copo de leite
Com uma pitada de cólera

Saiu do bar
Atravessou o túnel da ignorância
Estava muito cansado
Mas não havia muro das lamentações
No qual se apoiar

Se dirigiu à farmácia
E pediu um pouco de liberdade
O frasco é caríssimo
Deve ser administrado em pequenas doses
Caso contrário os efeitos podem ser letais

Viciado em esquecimento
Bebeu todo o frasco
E foi correndo conversar com a bonança
Que estava acompanhada da bem-aventurança
E de outras lindas donzelas

Juntos brincaram como se não houvesse o amanhã
Interagiram nus com arquiteturas modernistas
O bem estar se juntou a eles
E foram se banhar na fonte dos desejos

A beleza
Apesar de estar com eles
Há algum tempo
Deu ouvido à arrogância
E seguiu o caminho contrário
Indicando-lhes o caminho do desprezo

Eles mandaram-na à merda
Ela estava ficando velha
Existem belezas de outras sortes
Que só aparecem junto com a convivência

Encontraram a ética
Espancaram-na até a morte
E jogaram-na no lixo da história
Dançaram de mãos dadas
A dança da vitória

Foram ao supermercado da vida
Apedrejaram seus telhados de vidro
Mas foram pegos pelo consumo desvairado
E se empanturraram de volúpia enlatada

MFO


Saiu próximo à rua, estava escuro o bastante. Chovia e ele se abrigou embaixo do toldo... de uma cobertura ou algo desse tipo. Era um local público e como em qualquer local público – com coberturas ou não – passa gente de todo tipo. Corpos atravessados por muitos acfetos não causam sobressaltos, mas por ali poderiam passar corpos com algumas intensidades afetuais inconvenientes que poderiam atrapalhar a ação com comentários caretas, politicamente corretos ou com ameaças e coerções garantidas por leis tucanas.
Por conta de gente desse último tipo que ele está esperto e com o olho vivo. Olha para trás, para frente, para a direita (e contém a ânsia de vômito), para a esquerda (e contém o sonolento bocejo), para noroeste à 52 graus e para sul-sudeste à 38 graus. O movimento por aquele território não oferece contratempos. Então... é a hora de acender a chama e fazer um pouco de fumaça.
No momento em que a fumaça inicia sua trajetória uma zelosa mãe de família – voltando para satisfazer sua prole devidamente provida com seis paezinhos e um leite tipo B – reprova veementemente tal atitude nociva. Ele, constrangido, finge que a linguagem corporal executada não lhe dizia respeito e continua a executar estaticamente seu ato. Alguns segundos após, um pontual cidadão pagador de impostos que, todos os dias – inclusive nos fins de semana – passava pela mesma via no mesmo horário exclama diretamente para ele: “sinto-me embasbacado com tamanha estapafúrdia!”. Ele precisa fazer questão de não entender, e o faz.
Minuto depois da exclamação, o Estado – personificado em figuras armadas vestidas de cinza e azul claro – chega ao local se achando incontestavelmente certo. Ele não tem como ignorar... se vira e coloca as mãos na parede. Ele, que possui algo “em cima” e nada embaixo (da palmilha), tenta se explicar, mas não há explicações. Foi pego em flagrante e, junto com o dono do estabelecimento, sofrerá constrangimentos legais nada legais apoiados por parte da sociedade.
Craque?! Ópio!? Haxixe!? Maconha?! Não, ele sorve o conteúdo gasoso de um bastonete nicotinoso livre de substâncias psicotrópicas! Fedido, careta, podre, crivo, pigas... um cigarro.
Não mais que de repente ele ridiculamente perdeu o direito de saciar tranquilamente um vício ou um hábito.
Dizem que 84% gosta, que ninguém é obrigado a inalar a fumaça do cão, que o monoxímetro – que merda é essa!!! – comprova coisa e tal. Que se foda... queremos nosso lugar para fumar.
Ah, o cigarro mata – dizem os seguros. A salsicha do cachorro quente também – principalmente as que são confeccionadas com jornais de conteúdo duvidoso. Deveríamos proibir o consumo de salsichas de cachorro quente em locais públicos ou privados de uso coletivo? Proíbam-se as salsichas!
Ah, mas o cigarro polui o ambiente ao redor prejudicando a saúde do cidadão – dizem os precavidos. Os automóveis e o repolho também. Deveríamos proibir o consumo de automóveis e repolhos em locais públicos ou privados de uso coletivo? Proíbam-se os automóveis e os repolhos!
Ah, mas o cigarro é um hábito, sem razão, mesquinho e muito nocivo – dizem os prudentes. Ler a revista Veja e assistir o Fantástico também. Deveríamos proibir o consumo de Veja e Fantástico em locais públicos ou privados de uso coletivo? Proíbam-se as Vejas e os Fantásticos!
Sob tais circunstâncias, lançamos as bases para o MFO (Movimento dos Fumantes Oprimidos)... todo homem tem direito de fumar como quiser! Fume no chuveiro, no quintal, fume nu, fume numa boa!!!
Convocamos todos que desprezam o monoxímetro a um FUMAÇAÇO.
O ato se dará em algum bar, restaurante e/ou casa noturna de SP. Todos - relógios sincronizados, cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos, charuletas, paiotos, isqueiros e fósforos à mão –, no momento combinado, ao som de “Eu fumo sim e estou seguindo, tem gente que não fuma está tossindo” acenderemos nossas dignidades perdidas e defumaremos os germes serristas da nação!!!!
Você está convocado! Aguarde as próximas coordenadas – a serem dadas por sinais de fumaça, já que e-mails são rastreáveis –, trague sua coragem e queime tudo aquilo que lhe estorva.
Não respire, estou fumando!!!*
Abraços fumegantes: Pepe de La Coña

*E que nenhum fabricante de cigarro venha colar sua imagem com a nossa
!!!

GOSTOSINHA ACOMPANHADA

Gostosinha acompanhada
Gostosinha acompanhada
Quando me vê te olhando
Se sente mimada

Gostosinha acompanhada
Gostosinha acompanhada
Finges que não me vê
Nessa curta estada

Áh... gostosinha acompanhada
Tu és perfeita
Nessa real acobertada
Vives apenas em fantasia
De voluptuosidade fantasiada

Não tens vontade própria
Não late
Não chia
Não cobra
Não mia

És santa
És vadia
És mãe
És amante

Na verdade
Não és nada
És apenas
Uma gostosinha acompanhada

A GRANDE MARCHA

Aquele era o grande dia. Era o dia da grande marcha.

Todos saíram de suas casas seus objetivos unificados. Todos iriam exigir os seus direitos em alto e bom som. Todos em marcha no ato manifesto de passeata em luta de protesto.

Essa era a hora. As ruas estavam cheias de bandeiras, de cartazes, de tambores, de idéias, de poesias, de arte, de música, de mensagens, de gritos de ordem, de revolta, de esperança, de atitude e de disposição. A marcha conquistou um grande número de adeptos. Agora os poderosos não poderiam os ignorar, pois estavam unidos em uma só voz. A corrente era forte.

Após a concentração saíram em passeata. O protesto, como a imensa maioria dos protestos, era justo e legítimo a partir de uma lógica social-humanística de esquerda democrática socialista, comunista ou anarquista (onde também havia rappers, punks e skatistas).
A tarefa está dada. A exploração do homem sobre o homem já se tornara insuportável. A enganação, a sedução e a violência já não podiam ser escondidas. A usurpação, o cinismo e a desigualdade já não podiam ser aceitas. Estão aqui procedendo à luta por pão, trabalho, dignidade, liberdade, igualdade, justiça, terra, democracia plena, felicidade e respeito.

A tarefa está dada. A marcha caminha a passos largos em direção aos seus objetivos. Eles têm tática (de luta), eles têm estratégia (revolucionária). A marcha caminhava a passos largos pelas ruas da cidade com suas exigências, as quais eram inegociáveis. A cada esquina dobrada, o sentimento e o volume de seus cantos e gritos de protesto se tornavam mais fortes. A hora de alcançar seus objetivos se aproximava. Eles têm tática (de luta), eles têm estratégia (revolucionária).
Todos em marcha no ato manifesto de passeata em luta de protesto. Estão chegando próximo do centro do poder de onde emana toda a podridão que estão cansados de ver, que estão cansados de inalar, que estão cansados de tocar, que estão cansados de ouvir, que estão cansados de provar e engolir.

Chegaram a frente do centro do poder. Gritam, cantam, dançam e agitam bandeiras em seu protesto. Suas exigências eram inegociáveis. Foi tirada uma ampla comissão, que já não era de negociação, mas sim de imposição.

–“O povo está nas ruas e exige seus direitos” em coro organizado diziam os explorados.

Mas algo inesperado aconteceu. Os poderosos os ignoraram e não aceitaram suas imposições, nem mesmo quiseram negociar o inegociável. Mas eles continuavam a bradar seus objetivos.
Tropas de choque a postos. Bombas, coletes, balas, capacetes, escudos, cassetetes e a determinação de manter tudo em seu lugar. Todos em marcha no ato manifesto de passeata em luta de protesto. É a hora do grande confronto da grande marcha. Seus direitos não podem esperar mais. Três pedras forma arremessadas em direção da tropa de choque, a qual, por sua vez, lançou sete bombas de efeito moral e algumas balas de borracha para cima da multidão.
A multidão de explorados – com suas bandeiras, cartazes, tambores, idéias, poesias, arte, músicas, mensagens, gritos de ordem, revolta, esperança, atitude, disposição e exigências inegociáveis – fugiu louca, aterrorizada, chorando, e pedindo clemência.

Logo após o incidente, dizia-se, sem conseguir esconder a enorme frustração e vergonha: – “Eles fizeram sua parte”.

Os contestadores borra-botas voltaram para casa sem conquistar suas exigências inegociáveis.

SENTIMENTO DE CULPA

Fiquei com um enorme sentimento de culpa após abrir o Blog e ficar 3 meses sem postar nada.

Posto esse vídeo como malabarismo psicológico contra um sentimento demasiadamente cristão... e dedico isso à sua mãe.

Tenha uma Boa Tarde!!!

VIDA E MORTE VALDEMAR CARANBA

A propósito da liberdade, do sentido e da alegria de viver vou lhes contar uma bonita história.

Valdemar fez de sua vida uma obra de arte digna de ser notada, contada e admirada. Autor de frases famosas do tipo “Enquanto houver otário no mundo malandro acorda meio dia” (Caranba, 2000) ou “se assim não quiserem eu fico, mas fico puto” (Caranba, 1968).



Era um rapaz nevocaos, se dizia anarco-nacionalista de centro extrema. Não respeitava nenhuma lei ou convenção social, sociocultural, socioeducativa ou sócio-econômica. Apesar de, constantemente, apanhar da polícia (e de outros opressores) ele até que foi bem sucedido em suas transgressões: anulou o voto (votou no Clodovil); seqüestrou aviões; pisou na grama; pichou muros; fez xixi na borda da privada; passou no farol vermelho; passou cheques sem fundo; não pagou a conta do telefone; iniciou belíssimos movimentos de revolta que já nasceram derrotados; desprezou “sambinhas de partido alto”; comeu verduras e rejeitou a sobremesa; se masturbou pela irmã; não comprou cartões de natal da AACD; depredou caixas eletrônicos; xingou o patrão (no pouco tempo em que teve um); foi a uma praça “suspeita” mas não fumou maconha; encoxou a mãe no tanque; ocupou latifúndios; apertou o botão de todos os andares; bebeu aldeídos para ficar de ressaca sem ficar bêbado; quebrou os discos do Chico Buarque e assim vai.

Acontece que Valdemar ainda se sentia triste e angustiado com algo que não sabia bem. Será o mal da vida moderna? Pensou Caranba. Isso não, pois ele conhecia bem as mazelas e misérias da vazia vida na contemporaneidade. Estas mazelas, por serem conhecidas, revoltavam-no, mas não o angustiavam. Uma estranha força o fazia sentir que havia mais a fazer, havia mais a transgredir e a banalizar perante essa estúpida realidade.

Eis que, em uma tarde de cinzas, após roubar a bexiga de uma linda menininha (a qual possuía lindos cabelos com cachos dourados como raios de sol), em um lapso de distração, Valdemar deixou o balão escapar de suas mãos. Admirando o balão cair para cima, Caranba logo pensou: - Isso é liberdade!!!

Agora sim sua vida possuía novamente um sentido, ele elevou seu patamar de nevocaos para 220 revolts. Valdemar Caranba passaria a desobedecer as leis da física como uma meta a qual daria um novo sentido à sua vida. Todavia, desta vez, Valdemar não obteria tanto êxito. Tentou fumar debaixo da água e não conseguiu; tentou estar em dois lugares ao mesmo tempo e faltou em um compromisso; tentou viajar em uma velocidade acima da velocidade da luz e tomou um choque; desceu uma subida e percebeu que isso era relativo (além de tomar uma multa); tentou passar pelo buraco da agulha e se picou; ficou batendo cabeça durante meses (no muro) sem se conformar que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Em um belo dia de primavera foi descer de um prédio sem utilizar o elevador e nem a escada (nem mesmo uma corda), acabando por se espatifar no chão.

Valdemar Caranba caiu do 13º andar, mas não caiu na real.

QUEM!!??



Pensei nessa pergunta... e fiquei embasbacado.

A partir de que merda de "linha" que definimos nossa identidade!?
Time de futebol? Cidade em que nasceu? A comida preferida? As mulheres que comeu? As mulheres que amou? O estilo de musical preferido? O filme em que chorou? A profissão? O que faz nas horas "livres"? O bairro em que mora? A opção ética-estética-política? O nome do pai? O nome do filho? E do Espirito-santo? Se limpa o cu depois de cagar?...
Se vai ou se fica? O livro que lê? Se sabe ler? Se transa Rolling Stones ou Ramones? Qual animal seria? Qual o maior defeito? Qual a maior qualidade? Se fuma cigarro, maconha ou pedra? Se bebe ou morre de sede? A opinião sobre Hugo Chaves? A opinião sobre as alcachofras? A opinião sobre tudo?...
Muitas perguntas... fiquei com preguiça e não sei responder.
E tenho dito!!!